Amazônia e o direito dos povos da região, na luta contra a exploração das riquezas, estarão no foco do Sínodo da Amazônia

Debater o Sínodo da Amazônia, evento internacional organizado pela Igreja Católica e que acontece este mês no Vaticano, e as questões envolvendo os povos indígenas e ribeirinhos da região foram os objetivos da Audiência Pública realizada na tarde desta terça (1), na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, em parceria com a Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e Amazônia (Cindra). A autoria do debate foi dos deputados federais José Ricardo (PT/AM) e Helder Salomão (PT/ES), contando com a presença de representantes da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de entidades religiosas e sociais da Amazônia.

O Sínodo é uma modalidade de assembleia instituída pelo Papa Paulo VI e assumida como uma prática metodológica participativa da Igreja desde 15 de setembro de 1965. No caso do Sínodo da Amazônia, foi uma resposta do Papa Francisco à realidade da PanAmazônia, com “o objetivo de identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta”.

Em seu discurso na Audiência, Dom Evaristo Spengler, bispo da Prelazia do Marajó (PA), lembrou que o procurador da República, Felício Pontes, que atua na defesa do meio ambiente, faz uma análise de que o modelo de desenvolvimento predatório implantado na Amazônia tem cinco atividades básicas: a exploração da madeira, a pecuária extensiva, a mineração, a monocultura e a energia, que causaram consequências desastrosas para a Amazônia. “Essa exploração gerou consequências para a sociedade e seríssimos impactos sobre as populações locais, floresta, rios e clima”, afirmou Felício Pontes. “E a área desmatada do bioma concentra hoje nove em cada 10 mortes de ativistas no campo”, disse Evaristo, destacando que desde 1995 foram libertados cerca de 55 mil trabalhadores escravos em todo país, a metade desse trabalhadores estavam na Amazônia. Portanto, a falta de preservação da Amazônia, segundo o cardeal, traz junto as drogas, os assassinatos, a prostituição, a exploração, a escravidão humana e muitos outros males.

Deputado José Ricardo (PT/AM) durante a audiência pública na Câmara dos Deputados

Para o deputado José Ricardo, a realização dessa audiência é importante para poder ouvir os envolvidos no processo de organização do Sínodo da Amazônia. Como parlamentar do Estado do Amazonas, acompanhou alguns momentos desse processo de ouvir o povo e as instituições sobre a realidade amazônica e, a partir desse olhar da igreja e da encíclica Laudato Si, surgiu a ideia de trabalhar evangelização. “Nas reuniões preparatórias para o Sínodo, chamou-se a atenção para os problemas na região, com denúncias que atingem os direitos dos indígenas, dos ribeirinhos e de comunidades amazônicas, bem como a exploração das riquezas da região, onde poder público e sociedade devem atuar com mais força. Ainda cito os centros urbanos, onde a população também sofre com o descaso dos governantes”, declarou ele, voltando a criticar e a repudiar a atitude do Governo Federal em espionar o que estava acontecendo nessas reuniões preparatórias.

Cuidado com o meio ambiente
Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), disse que falar de Sínodo da Amazônia sem falar da Encíclica Laudato Si seria contraditório, uma vez que é a base para o surgimento do Sínodo da Amazônia. E neste sentido fez referência a três pontos importantes da carta do Papa Francisco sobre o cuidado da Casa Comum, onde ele lança para a sociedade uma mensagem muito fraterna chamando a sociedade para o cuidado com o meio ambiente.

“O Papa diz que a visão consumista do ser humano incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual tende a homogeneizar as culturas e habilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. Ele fala também que o desaparecimento de uma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento de uma espécie animal ou vegetal, a imposição ao estilo hegemônico de vida ligado ao modo de produção tão nocivo que altera os ecossistemas. E lembra ainda que é indispensável uma atenção especial às comunidades aborígenes, aos povos originários, com as suas tradições culturais e entender que não são apenas uma minoria entre outras, devendo tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança em tão grandes projetos que afetam os seus espaços, sua terra, que não é um bem econômico, mas um dom gratuito de Deus”, afirmou Buzatto.

O tema do Sínodo deste ano de 2019 será “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Na ocasião, bispos de todo o mundo terão acesso a um material produzido por 13 autores, três dos quais são brasileiros e membros da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam). Participaram também desta Audiência, dentre outros órgãos e entidades: Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); Núcleo de Estudos Amazônicos (NEAZ)/ Centro de Estudos Avançados Multidiciplinares da Unb e Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam).

Fotos: Rarimar Portela

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